Com o crescimento de uma geração de crianças, adolescentes e jovens adultos onde praticamente não existe falta de conteúdo, onde tudo existe em toda a parte e disponível a qualquer hora, as histórias podem passar a não terminar com um fim, mas continuar e sobreviver por muito mais tempo através de um processo em que são contadas em várias janelas e plataformas. Passámos a utilizar a oportunidade em que todos estão ligados digitalmente, onde as histórias podem viajar para além do ecrã de televisão ou projecção de um cinema e onde as personagens podem ser transportadas para novos ecrãs e novos dispositivos.
Há muito tempo que na literatura alguns autores antecipavam novas formas de contar histórias através de novas tecnologias: as salas de cinema com estímulos tácteis de Aldous Huxley no seu livro Brave New World, a TV Mural de Ray Bradbury em Fahrenheit 451 ou Win Wenders que, no seu filme Until the End of the World, coloca um dispositivo que permite gravar sonhos e onde a imaginação passa a ocupar todo o tempo das pessoas que não conseguem deixar de ver as suas próprias gravações. Um outro exemplo interessante destas novas formas de contar histórias é o caso das séries de televisão “Star Trek-Voyager” e “Star Trek-The New Generation” onde a tripulação de uma nave interplanetária tem à disposição um sistema de entretenimento denominado de Holodeck que consegue integrar o mundo real e o digital utilizando uma sala onde são realizadas projecções holográficas e sonoras de ultra definição, com sistemas de estímulo olfativo, táctil e vestibular, capazes de gerar personagens, paisagens, objectos e cenários, com o objectivo principal de aliviar o stress causado pelo isolamento da tripulação em missões de longa duração.
Nos tempos antigos as histórias eram contadas à volta de uma fogueira ou numa reunião de amigos onde uma determinada história nunca era contada da mesma forma, porque dependia de quem a contava, como a contava, que erros introduzia, que coisas eram alteradas cada vez que era contada: a história fluía de forma natural e dependia de todos os envolvidos: de quem a contava e de quem a ouvia porque participavam, e era flexível, adaptável e imperfeita. Quando as histórias passam a ser contadas em livros, cinema, televisão ou num palco de teatro, quem conta a história sabe tudo, o público apenas fica a ouvir ou a ver, sem qualquer participação de forma passiva e, no fim, ficam muito satisfeitos. Com a chegada dos formatos digitais a audiência deixou de estar interessada neste tipo de histórias. As pessoas passam a ser activas, a desejar alterar as histórias que lhes são contadas, a alterar o rumo das personagens e faze-lo em várias plataformas.
Baseando-nos nos princípios de Jeff Gómez, especialista em projectos deste tipo para a Disney e Coca-Cola, são vários os princípios base para se construir uma boa história num projecto de narrativa transmedia:
- Criação de conteúdo por um ou vários criadores: uma pessoa ou uma pequena equipa fica encarregada de criar a visão do projecto e é responsável pela sua manutenção e protecção.
- Transmedia desde o inicio: a equipa deve pensar no projecto como transmedia logo a partir do início em vez de se adaptar algo já feito não pensado originalmente como um projecto de narrativa transmedia.
- Conteúdo distribuído pelo menos em 3 plataformas: para se criar uma história transmedia é necessário pelo menos 3 plataformas diferentes, que façam o projecto ser mais criativo e variado.
- Conteúdo único e original para cada uma das plataformas: a história deve ser nova, original e específica para cada plataforma. Cada plataforma tem as suas próprias características e há que saber identificar o que funciona melhor em cada uma delas. Cada plataforma deve oferecer à audiência novos elementos da história, melhorar a acção ou o enredo, ou introduzir novas personagens.
- O conteúdo deve mostrar uma visão única do mundo narrativo: uma História, um Mundo e muitas Plataformas. Sob o primeiro princípio, em toda a narrativa transmedia contamos uma visão, sendo esta partilhada por várias plataformas. O papel do coordenador é essencial para unificar essa visão no mesmo mundo narrativo.
- Evitar divisões ou incoerências no mundo narrativo: prestar atenção às comunidades externas como, por exemplo, os fãs. Estes podem ajudar a encontrar contradições ou erros no nosso mundo narrativo e que podem acabar por destruir ou desviar a linha de argumento que foi criada.
- Integrar todas as pessoas: o êxito de um projecto transmedia não depende apenas dos seus criadores. No processo existem outras pessoas como a produção, distribuição ou patrocínios. Tem de existir um esforço em unificar todas as pessoas de forma vertical para que partilhem o mesmo objectivo e a mesma visão.
- Participação da audiência: principio chave do sucesso. O papel da audiência na narrativa transmedia tem de ser bastante activo. Devemos ser capazes de os incitar a participar e dar-lhes o seu próprio espaço de interação para que tenhamos comentários e novas ideias.
Para se contar histórias com sucesso no século XXI torna-se necessário encontrar uma forma de trabalhar através de múltiplas plataformas: livros, teatro, twitter, videos de fãs, jogos, arte de rua, teatro de rua, comida, radio, posters, facebook, youtube, vimeo, pininterest. A multi plataforma já não é uma opção. A chave é a participação e temos de pensar como aumentar a experiência da audiência. E isto não se refere apenas a uma simples página no Facebook ou website, porque a audiência quer participar a um nível muito mais profundo na história: quer moldá-la, interagir, participar de forma a que a história possa ir mais longe. No fundo o que interessa é fazer um enorme barulho à volta de algo. Num mundo que se torna cada vez mais dominado pelas múltiplas plataformas, as fronteiras dissipam-se nas formas como se conta a história e como a audiência a interpreta e interage, e acima de tudo, no que é um facto e o que é ficção.